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Brasileiro ídolo da Seleção do Japão passa carreira a limpo e revela para quem torcerá na Copa

Brasileiro ídolo da Seleção do Japão passa carreira a limpo e revela para quem torcerá na Copa
26.06.2026     Fonte: G1

O coração de um nipo-brasileiro viverá um misto de emoções nesta segunda-feira, às 14h, quando Brasil e Japão se enfrentarem pela segunda fase da Copa do Mundo. A cerca de 18 mil quilômetros de Tóquio, Marcus Túlio Tanaka leva uma vida tranquila longe dos holofotes, na pequena Palmeira d´Oeste, cidade do interior de São Paulo com menos de 10 mil habitantes.

Naturalizado japonês, o ex-zagueiro é considerado um dos maiores jogadores da história da J. League, a principal divisão do Japão. Em sua carreira, fez incríveis 111 gols em 542 jogos em uma média impressionante para um defensor.

Ele se tornou um verdadeiro superstar no país do sol nascente e, apesar do enorme sucesso conquistado do outro lado do mundo, ainda é pouco conhecido pelos brasileiros. Marcus Túlio faz parte da rica história de brasileiros no futebol japonês, que teve grandes personagens como Dunga, Zico e Emerson Sheik.

Em entrevista ao ge, o ídolo nipônico e “low-profile” brasileiro, contou sobre a carreira construída do outro lado do mundo. No Brasil, Marcus Túlio sequer atuou profissionalmente. Ainda jovem, fez testes no Cruzeiro e passou pela base do Mirassol. Aos 15 anos, após ganhar uma bolsa de estudos, se mudou para o Japão.

Com passagens por clubes como Sanfrecce Hiroshima, Nagoya Grampus e Urawa Red Diamonds — equipe pela qual foi eleito o melhor jogador da liga em 2006 — Tanaka marcou 125 gols ao longo da carreira e conquistou títulos nacionais e continentais, incluindo a Liga dos Campeões da Ásia, em 2007.

– Construí minha história, minha trajetória. Fiquei 23 anos no Japão. Saí daqui com 15, voltei com 38. Acabei me naturalizando e para mim foi uma história construída com muito suor. Com muita coisa legal que até hoje sinto muito orgulho.

Túlio Tanaka é um dos três brasileiros a defender a seleção japonesa. O zagueiro fez oito gols em 50 jogos.

Sem torcida dividida

O Brasil é o país do mundo com a maior população de origem japonesa fora do Japão. São mais de dois milhões de descendentes. Marcus Túlio é um desses e não fica em cima do muro ao definir a torcida para o duelo desta segunda-feira.

– Espero que o Japão vença. Sempre que as duas seleções se enfrentam, eu torço pela seleção nipônica. Também espero que, nesta Copa, a gente consiga chegar entre os oito melhores.

Superstar japonês?

Nos anos 2000, com a popularização da internet e o auge da televisão, Marcus Túlio começou a ganhar grande fama no Japão. Com um estilo diferente para um zagueiro, aliado às boas atuações e ao jeito irreverente dentro de campo, Tanaka conquistou a admiração dos torcedores japoneses, principalmente dos fãs do Urawa Red Diamonds.

Durante os 23 anos que viveu no Japão, Marcus Túlio recebeu diversas homenagens. Sua trajetória inspirou livros e mangás, além de campanhas publicitárias de grande repercussão. Entre elas, uma propaganda de um aparelho de barbear, que na época era algo até mesmo sofisticado.

– Fizemos marca de videogame, marca de barbeador, comercial para o aeroporto. Fiz fotografia de filme.

A casa do ex-jogador também se transformou em uma espécie de museu dedicado à própria carreira. Além dos itens já citados, Marcus guarda camisas históricas, tanto de equipes pelas quais atuou quanto de adversários, troféus e chuteiras especiais, incluindo as que utilizou em uma Copa do Mundo.

No entanto, a peça mais rara da coleção é uma estátua de gesso em tamanho real de Marcus Túlio. Produzida pela Nike antes da Copa do Mundo, ela possui um detalhe especial: em sua superfície estão registradas dezenas de mensagens de apoio e incentivo deixadas por torcedores japoneses durante a preparação para o Mundial. A estátua também traz a frase, em japonês, “escreva o futuro”, slogan de uma campanha promovida pela própria Nike.

– Quando entrava em campo, eu me expressava demais. Às vezes ficava muito bravo, ficava maluco. Quando fazia gol, pulava no meio da torcida. Eu era um jogador que se dedicava ao máximo. Acho que foi isso que motivou a torcida a gostar de mim.

Polêmica com Drogba

Dias antes da estreia na Copa do Mundo de 2010, a Seleção Japonesa disputou alguns amistosos como parte da preparação para o torneio. O último deles foi contra a Costa do Marfim. A atuação dos Samurais Azuis não foi das melhores, porém, um lance específico, ganhou mais destaque do que a derrota por 2 a 0.

Logo aos 15 minutos do primeiro tempo, em uma jogada confusa, Marcus Túlio acertou o braço direito de Didier Drogba com o joelho. O atacante marfinense lendário sofreu uma fratura no cotovelo e precisou deixar o campo.

Na época, o episódio gerou grande repercussão. Primeiro, porque existia o rumor de que a lesão tiraria Drogba da Copa do Mundo. Além disso, um dos adversários da Costa do Marfim na fase de grupos seria justamente o Brasil, o que alimentou especulações e comentários sobre o lance.

– Isso repercutiu de um jeito muito negativo na minha carreira. Porque diziam que um jogador brasileiro, entre aspas, tirou o melhor jogador da Costa do Marfim da Copa, que iria enfrentar o Brasil. Mas isso nunca passou pela minha cabeça. Nunca pensei em prejudicar alguém que era um superstar naquela época.

Marcus Túlio conta que conversou e pediu desculpas a Drogba logo após a partida e chegou a escrever uma carta à Federação Marfinense de Futebol também para se desculpar. Apesar de toda a polêmica, o atacante se recuperou a tempo de disputar a Copa do Mundo e, inclusive, marcou um gol contra o Brasil na derrota da Costa do Marfim por 3 a 1, ainda na fase de grupos.

Mesmo com Drogba se recuperando, o episódio deixou marcas na carreira de Marcus Túlio, que até hoje se recorda da repercussão gerada pelo lance.

– Isso foi uma coisa muito chata e que marcou. Tanto que eu descia no aeroporto e as pessoas falavam “olha o japonês que machucou o Drogba”. No final das contas, a gente sabe qual a história que vai ser contada, mas na época me deixou muito chateado.

A Copa do Mundo (que ele não viu)

No melhor estilo do clichê do futebol, disputar uma Copa do Mundo é o sonho de qualquer jogador. E Marcus Túlio Tanaka tem o orgulho de dizer que realizou esse sonho. Após participar dos Jogos Olímpicos de 2004, ele chegou a ser cogitado para integrar a seleção japonesa na Copa do Mundo de 2006, comandada pelo então técnico Zico, mas acabou ficando fora da lista final.

Quatro anos depois, a oportunidade veio. Em 2010, Marcus Túlio não apenas foi convocado pelo técnico Takeshi Okada, como também atuou como titular em todos os jogos da campanha japonesa.

O Japão integrou o Grupo E, ao lado de Camarões, Dinamarca e da futura vice-campeã Holanda — curiosamente, a mesma adversária da estreia japonesa neste Mundial. Apesar da desconfiança que cercava a equipe, os japoneses surpreenderam e avançaram às oitavas de final na segunda colocação da chave. Foram seis pontos conquistados, com vitórias sobre Camarões e Dinamarca, e apenas uma derrota para os holandeses.

Aliás, nessa partida Marcus Túlio teve pela frente Robin Van Persie, apontado por ele como o jogador mais difícil que marcou em toda a carreira.

– O Van Persie eu não consegui marcar. Eu acho que o tempo de bola dele era diferente do meu. Ele tinha um comprimento de perna, parecia que o quadril dele era mais para cima. Tudo que eu fazia, ia ao contrário.

Nas oitavas de final, os Samurais Azuis enfrentaram o Paraguai. Após um empate sem gols no tempo regulamentar e na prorrogação, a decisão foi para os pênaltis, e os sul-americanos levaram a melhor.

Até hoje, essa campanha é considerada uma das mais marcantes da história do Japão em Copas do Mundo. A equipe contava com nomes importantes, como Kawashima, Honda, Okazaki e o próprio Marcus Túlio, e ajudou a consolidar uma geração que ficou marcada no futebol japonês.

Mas tem um pequeno porém. O ex-zagueiro admitiu que ainda não assistiu nenhum dos jogos daquela a Copa, inclusive a disputa de pênaltis. Segundo ele, a intenção é esperar os filhos crescerem para rever junto com eles.

– As imagens estão só na minha cabeça. Um time desacreditado, que nunca ganhou um jogo fora do Japão na Copa do Mundo e acabou sendo uma das melhores participações. Isso foi muito legal. Quero guardar comigo e um dia que eu estiver bem tranquilo, quero sentar com as minhas crianças e assistir a esses jogos.

Vida no interior paulista

Ainda em 2011, Marcus Túlio Tanaka recebeu sondagens do futebol brasileiro e chegou a negociar com o Botafogo. No entanto, por questões financeiras, optou por permanecer no Japão, onde seguiu atuando até encerrar a carreira, em 2019.

Talvez justamente por toda a fama construída no outro lado do mundo, Marcus tenha escolhido levar uma vida mais discreta no interior paulista.

Desde a aposentadoria, ele vive em Palmeira d'Oeste. Ao lado do pai, administra diversos negócios, que vão do setor imobiliário à rede de postos de combustíveis. Além disso, mantém um haras e desenvolve um projeto social que atende mais de 200 crianças, oferecendo aulas de karatê, beach tennis e, claro, futebol.

Apesar da distância, a ligação com o Japão continua forte. Marcus produz conteúdo em japonês para o YouTube e frequentemente é convidado para atuar como comentarista em emissoras de televisão do país. Inclusive, integra a cobertura japonesa da Copa do Mundo de 2026.

Mesmo mantendo uma relação próxima com o país que o transformou em ídolo, é no interior paulista que ele escolheu construir a vida após os gramados.

– Graças a esse planejamento de vida, hoje eu posso pescar quando quero, fazer as coisas no meu tempo. Vim para uma cidade onde não preciso me preocupar com trânsito, onde posso sentar em um barzinho com os amigos sem ninguém me pedir autógrafo, algo de que nunca gostei muito. Hoje, meu relógio tem um ponteiro que anda um pouco mais devagar do que quando eu estava no Japão – encerrou.