
Dois médicos-veterinários viraram réus na segunda fase da investigação sobre a venda clandestina de sangue de gatos em Monte Alto (SP). Eles respondem por maus-tratos a animais, por seis vezes, e por associação criminosa.
São eles a veterinária Thaís Daniele Antonussi, de 34 anos, e o veterinário Renato Franco, de 35, os dois de São José do Rio Preto (SP). A Justiça recebeu a denúncia em 10 de setembro.
Eles não estavam na casa onde os gatos foram encontrados desacordados, em outubro de 2025. A acusação do MP é de que os dois teriam atuado em outra ponta: na organização das demandas, no financiamento de viagens, nos pagamentos e na destinação das bolsas de sangue.
Segundo a denúncia, com base no depoimento do estudante preso em flagrante, cada bolsa de cerca de 50 ml era revendida por valores entre R$ 500 e R$ 800, para todo o país.
A acusação formal de maus-tratos nesta ação trata de seis gatos. Outros números, como 28 animais no dia da abordagem e 38 em uma viagem anterior a Monte Alto, aparecem em depoimentos e mensagens analisados pela Polícia Civil, mas não são o objeto principal da denúncia aceita pela Justiça nesta etapa.
O recebimento da denúncia não significa condenação. Os réus ainda poderão apresentar defesa, e as provas serão analisadas ao longo do processo.
O que dizem as defesas
Segundo a Polícia Civil, o grupo captava animais, fazia coletas clandestinas de sangue e vendia o material de forma irregular. A investigação aponta atuação em Monte Alto, São José do Rio Preto, Mirassol, Catanduva e região.
O g1 procurou Thaís por e-mail e WhatsApp para que ela se manifestasse sobre as acusações, mas não recebeu resposta até a última atualização desta reportagem. Ela também nunca foi ouvida na investigação: duas cartas precatórias enviadas a São José do Rio Preto voltaram sem que fosse localizada nos endereços pesquisados, segundo os autos.
A reportagem também procurou a empresa HemoAcademy por e-mail e WhatsApp. O e-mail não foi respondido. Pelo WhatsApp, a empresa afirmou que Thaís “é inocente”, que “não tem nada a ver com o assunto” e que o caso é “uma tremenda injustiça”.
A defesa de Renato Franco foi procurada e respondeu por meio da advogada Naiara Croffi. Em nota, ela afirmou que a defesa ainda não foi intimada formalmente sobre o processo. Disse também que Renato “nega veementemente” os fatos, afirma não ter relação com as acusações e sustenta que sempre atuou dentro da legalidade e em observância às normas do Conselho Regional de Medicina Veterinária.
O que a denúncia atribui aos veterinários
Na denúncia aceita pela Justiça, o Ministério Público afirma que a associação investigada tinha divisão de tarefas.
Segundo a acusação, havia pessoas responsáveis por captar tutores e animais, transportar integrantes do grupo, executar as coletas e comercializar o sangue.
Thaís e Renato são colocados pelo MP no chamado núcleo de comando técnico, financiamento e comercialização. A denúncia sustenta que os dois teriam concorrido como “mandantes e coautores funcionais” para maus-tratos contra seis gatos.
O MP afirma que os animais foram sedados e tiveram sangue retirado em ambiente inadequado. A sedação foi feita pelo estudante, com quetamina e dexmedetomidina, segundo o depoimento dele. A veterinária que examinou os gatos declarou que esses medicamentos só podem ser adquiridos por profissional com registro no CRMV e não deveriam ser usados em domicílio, porque exigem monitoramento dos sinais vitais.
Quem é Thaís Antonussi
Thaís Daniele Antonussi é médica-veterinária com registro no CRMV-SP. A investigação a relaciona a atividades profissionais no setor de hemoterapia animal e a empresas ligadas a banco de sangue veterinário.
Segundo o Ministério Público, ela seria uma das responsáveis por coordenar o fluxo de coletas, negociar pagamentos e organizar a destinação do material. A denúncia afirma ainda que pagamentos a pessoas envolvidas nas viagens e nos procedimentos teriam relação com empresas ligadas à atuação profissional dela.
O MP também afirma que Thaís seria a “titular de fato” de um banco de sangue veterinário citado na investigação. Essa é uma tese da acusação, ainda sujeita ao contraditório no processo.
'A Polícia Civil também juntou aos autos publicações em redes sociais sobre cursos, consultorias e atividades ligadas à coleta de sangue animal. Esse ponto aparece na investigação como elemento de contexto sobre a atuação pública de Thaís na área, mas não representa, por si só, condenação ou prova definitiva de irregularidade.
O que registros empresariais mostram sobre nomes ligados a Thaís
Fichas da Junta Comercial de São Paulo mostram alterações em empresas ligadas aos nomes Serhemopet, HemoSer e HemoAcademy.
A HemoAcademy se apresenta como uma empresa de formação em hemoterapia veterinária, com cursos presenciais voltados a médicos-veterinários interessados em planejar, estruturar e operar bancos de sangue animal.
No site da empresa, Thaís Antonussi é apresentada como coordenadora do curso e responsável técnica da HemoAcademy. Documentos da Junta Comercial mostram que a empresa, no mesmo CNPJ, já usou os nomes Serhemopet Ltda e HemoSer Banco de Sangue Veterinário Ltda, mas a ficha cadastral não aponta Thaís como sócia formal.
Outra ficha mostra a HemoSer Franchising Ltda como empresa dissolvida. O documento aponta alterações societárias em 2024 e distrato social registrado em 2025.
Esses registros não comprovam, por si só, irregularidade. Eles ajudam a reconstruir a rede de nomes comerciais citados na investigação e em atividades profissionais ligadas ao setor de banco de sangue animal.
O que dizem Thaís e a HemoAcademy
O g1 procurou Thaís Daniele Antonussi por e-mail e WhatsApp para que ela se manifestasse sobre as acusações feitas pelo Ministério Público e pela Polícia Civil. Até a última atualização desta reportagem, ela não havia respondido diretamente.
A reportagem também procurou a HemoAcademy por e-mail e WhatsApp. O e-mail não foi respondido. Pelo WhatsApp, a empresa afirmou que Thaís “é inocente”, que “não tem nada a ver com o assunto” e que o caso é “uma tremenda injustiça”.
A empresa disse ainda que “em breve tudo será esclarecido” e que Thaís ainda não foi ouvida. Questionada se a manifestação poderia ser considerada oficial da empresa, a HemoAcademy confirmou que sim.
Questionada sobre o contato da defesa de Thaís, a empresa informou que havia advogado, mas não enviou os dados até a última atualização desta reportagem.
Quem é Renato Franco
Renato Franco é médico-veterinário e também aparece na investigação com registro no CRMV-SP. Documentos juntados à investigação o relacionam a empresas do setor de banco de sangue animal.
Segundo o Ministério Público, Renato integrava o núcleo de coordenação e destinação do material. A denúncia cita mensagens extraídas de celulares que, segundo a acusação, indicariam comunicação sobre coletas e demanda por bolsas de sangue.
O MP também afirma que Renato era ligado à Revivet Banco de Sangue Animal Ltda. e teria participado da coordenação e comercialização do material investigado.
A própria Polícia Civil, no entanto, fez uma ressalva no relatório final. Ao tratar especificamente de Renato, afirmou que o conjunto de elementos contra ele era “mais tênue que o dos demais”, embora, na avaliação da autoridade policial, fosse suficiente para o indiciamento e posterior análise do Ministério Público.
O que registros empresariais mostram sobre Renato
Uma ficha da Junta Comercial aponta que o Banco de Sangue de Animais Revivet Ltda foi constituído em março de 2024, com capital de R$ 25 mil, e tinha Renato Franco como sócio e administrador.
O mesmo documento informa que a empresa consta como dissolvida e que o distrato social foi arquivado em janeiro de 2025.
Outra ficha empresarial mostra a Manancivet Banco de Sangue Veterinário Ltda como denominação atual de uma empresa que já teve nomes anteriores ligados à Revivet Banco de Sangue de Animais Ltda. Renato aparece como sócio e administrador, e o objeto social inclui atividades veterinárias e serviços de hemoterapia.
O documento registra alterações recentes de nome, endereço e objeto social em agosto de 2026.
Esses documentos mostram vínculos empresariais de Renato com o setor de hemoterapia veterinária. A relação desses registros com os fatos investigados é um dos pontos tratados pela acusação e contestados pela defesa.
Como a investigação chegou aos veterinários
O caso começou em outubro de 2025, depois que uma pessoa viu um anúncio nas redes sociais oferecendo R$ 50 a tutores que aceitassem submeter gatos à retirada de sangue.
Ela fingiu interesse, conversou com uma intermediária e acionou a Guarda Municipal e a Secretaria Municipal de Agricultura e Meio Ambiente de Monte Alto.
Na época, agentes foram até uma residência e encontraram gatos desacordados, materiais veterinários e recipientes com sangue. Três pessoas foram presas em flagrante. Apenas um estudante de veterinária foi mantido preso após a audiência de custódia e, segundo o delegado, foi solto durante o processo.
A segunda fase da investigação avançou sobre quem, segundo a Polícia Civil e o Ministério Público, estaria por trás da captação dos animais, das viagens, dos pagamentos e da destinação do sangue coletado.
Bancos de sangue não sao regulamentados
O CRMV-SP informou ao g1 que não há atualmente regulamentação específica no Brasil para bancos de sangue de animais.
Segundo o conselho, o Conselho Federal de Medicina Veterinária mantém um grupo de trabalho para elaborar uma resolução sobre o tema ou uma minuta a ser enviada ao Poder Legislativo.
O CRMV-SP informou ainda que não é adequada a comparação direta com bancos de sangue humano, que seguem normas da Anvisa e têm distribuição e aplicação previstas em lei federal.
Segundo o conselho, para a coleta de sangue animal, o estabelecimento precisa ter registro no sistema CFMV/CRMVs e médico-veterinário responsável técnico homologado pelo conselho. O CRMV-SP citou a Resolução CFMV nº 1.177/2017 e a Lei nº 5.517/1968, que trata do exercício da Medicina Veterinária.
Dependendo da atividade, o local pode ser enquadrado como clínica, hospital ou laboratório e precisa cumprir normas específicas para esse tipo de estrutura, como as resoluções CFMV nº 1.275/2019 e nº 1.374/2020.
De acordo com o CRMV-SP, essas exigências são necessárias para garantir atendimento seguro aos animais e preservar a saúde e o bem-estar deles.
O conselho não respondeu, de forma específica, se é permitido pagar tutores, cobrar por bolsas de sangue animal ou lucrar com o serviço.