
“O rio nasce limpo, sofre muito na cidade grande, mas, no interior, ele volta a viver”. É com essa reflexão sobre o Rio Tietê que o documentário "Y Anhembi" conduz o público por uma narrativa sobre a relação ancestral dos povos indígenas com o rio. A média-metragem foi premiada em um festival de cinema em Londres.
Ao g1, o diretor da obra, Vicentini Gomez, nascido em Presidente Prudente (SP), descreveu como se sentiu ao receber o reconhecimento pelo trabalho que fala sobre um dos mais importantes cursos d’água do estado de São Paulo.
“Recebi o prêmio com muita alegria e gratidão. Ser reconhecido como Melhor Diretor pelo London Cine Awards, com um filme dedicado ao Rio Tietê e à relação dos povos originários com esse território, tem um significado muito especial.”
Conhecido por papéis em novelas da Globo, como Avenida Brasil (2012, reprisada em 2026) e Joia Rara (2013), Vicentini diz que o prêmio de melhor diretor representa o reconhecimento do trabalho coletivo da equipe.
“E confirma a força de uma história brasileira contada a partir de suas raízes, de sua cultura e de sua importância ambiental.”
O resultado da premiação foi divulgado na quinta-feira (16), no site oficial do festival “London Cine Awards”, realizado em Londres, na Inglaterra.
“Falar sobre o Rio Tietê é falar sobre a formação do Brasil e sobre uma relação muito antiga com esse território. O filme parte da visão dos povos originários, para quem o rio sempre foi fonte de vida, caminho, alimento e também parte da família, um parente com o qual se estabelece uma relação de respeito e pertencimento", detalha o diretor.
Recuperar o olhar ao Rio Tietê
Ao longo de 30 minutos, o documentário retrata a importância do Rio Tietê e convida o público a refletir sobre a preservação do manancial.
“Para que possamos compreender a dimensão histórica, cultural, espiritual e ambiental do Tietê e refletir sobre a responsabilidade que temos diante de sua preservação.”
Para realizar o filme, Vicentini Gomez e a equipe percorreram o curso do Tietê, desde sua nascente na Serra do Mar, em Salesópolis, até sua foz no Rio Paraná, cruzando o Estado de São Paulo.
Selecionado pelo Edital Fomento CULTSP PNAB nº 20/2024, o documentário reúne imagens aéreas e terrestres, depoimentos de pesquisadores e cenas interpretadas por atores indígenas.
“O rio falava, agora engasga. Um dia foi sagrado, depois estrada. Hoje? Esgoto”, cita o documentário.
Os atores indígenas Toni Gonçalves e Lucas Augusto Martins interpretam figuras ancestrais que conduzem a narrativa e lembram que a história do Rio Tietê começou muito antes da chegada dos colonizadores.
“A principal mensagem é um alerta sobre a relação que estabelecemos com a natureza. Vivemos um momento de graves mudanças climáticas, poluição dos rios e redução dos recursos naturais, e precisamos rever com urgência a maneira como ocupamos e tratamos o planeta”, reforça o diretor artístico.
Y Anhembi
Durante a construção do roteiro, Vicentini relata que compreendeu que os povos originários ensinam a reconhecer o rio como fonte de vida e como parte da família, um parente que merece cuidado e respeito.
“Espero que o filme ajude o público a olhar novamente para o Tietê e compreender sua importância, proteger a nossa existência e o futuro das próximas gerações.”
A influência dos povos originários na produção da obra aparece até nos detalhes. O título "Y Anhembi" faz referência ao primeiro nome pelo qual o Rio Tietê era conhecido entre os indígenas que habitavam suas margens.
“O filme busca valorizar essa ancestralidade e recordar que, muito antes de ser chamado de Tietê, o rio já fazia parte da vida, da cultura e da espiritualidade indígena. O complemento ‘Rio Tietê’ permite que o público reconheça imediatamente o rio sobre o qual estamos falando, unindo seu nome ancestral à denominação atual”, descreve Gomez.
Após a premiação, Vicentini também recebeu uma crítica positiva de nortes-americanos sobre a produção: "Depois de 50 anos de carreira, ver uma publicação internacional destacar meu trabalho com palavras tão generosas representa uma confirmação de que a dedicação, a persistência e a liberdade de criar continuam produzindo frutos.”
Segundo Vicentini, a ideia do documentário era um desejo antigo, cultivado desde a década de 1990. Ele conta que sempre reconheceu a importância do Rio Tietê para a história de São Paulo e do Brasil, mas só agora conseguiu viabilizar o projeto.
“Até que finalmente conseguimos realizá-lo. Espero que esse reconhecimento internacional amplie a circulação do filme e contribua para colocar novamente o Tietê no centro das discussões sobre cultura, identidade e preservação ambiental. O rio faz parte da nossa história e precisa fazer parte das escolhas que estamos fazendo para o futuro”, afirma.
Elenco e produção
Também fazem parte do elenco Claudemir Causin, Rosana Monçoeira, Tam Causin e Jane Anjos, além dos cururueiros Cassio Carlota, Vagner da Viola e Steffano Sossoniche.
O documentário conta ainda com depoimentos dos historiadores Jonas Soares de Souza, André Figueiredo, João Carlos Cândido e Elton Bruno, da antropóloga Bernadete de Castro e do ambientalista Djalma Weffort.
Os depoimentos formam um amplo painel sobre o papel do Tietê na ocupação do território, nas monções, no deslocamento de pessoas e mercadorias, na formação da identidade paulista e nos desafios ambientais contemporâneos.
O filme é uma produção da Ilumina Serviços Culturais e conta na equipe com Hugo Caserta, responsável pela produção, edição e finalização; Diaulas Ullysses, na assistência de direção; Michel Vicentine Martins, autor da trilha sonora original; e Madalena Machado, responsável pelos figurinos.
Ainda não há previsão de o filme ser exibido no Brasil. No entanto, o público pode assistir ao trailer disponível no site do festival de Londres, por meio do link.