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Do papel às paredes dos quartéis: muralista transforma bombeiro em pintura de 12 metros no interior de SP

Do papel às paredes dos quartéis: muralista transforma bombeiro em pintura de 12 metros no interior de SP
15.09.2026     Fonte: G1

Quem passa pelo 13º Grupamento de Bombeiros de São José do Rio Preto (SP), no interior de São Paulo, ganhou um novo motivo para levantar os olhos. Em uma das paredes do quartel, um bombeiro aparece em tamanho gigante, vestido com o traje usado no combate às chamas e tendo a bandeira do estado de São Paulo como pano de fundo.

Batizado de “Herói do Fogo”, o mural tem cerca de 12 metros de altura, ocupa o equivalente a quatro andares do prédio e foi concluído em seis dias, no fim de agosto. A obra é assinada pelo muralista Mateus do Carmo, de Ribeirão Preto, que realizou o trabalho de forma voluntária.

A pintura é também uma homenagem a um dos bombeiros do quartel, cabo Rogério, que Mateus conheceu durante o trabalho. “Baita homenagem”, resume o artista, em entrevista ao g1, sobre a oportunidade de retratar o bombeiro.

O convite para pintar em Rio Preto surgiu depois que um amigo em comum do coronel Orival Santana Junior conheceu o trabalho de Mateus durante uma pintura em Araçatuba.

O resultado chamou a atenção e o muralista recebeu o convite do comandante do 13º Grupamento, para enfrentar aquele que, segundo ele, foi o maior trabalho que já realizou dentro de um quartel do Corpo de Bombeiros. Missão dada, missão cumprida: “Eu prontamente atendi o desafio”, conta.

Quatro andares de parede

Para transformar um desenho feito no papel em uma imagem de 12 metros, Mateus precisou encarar um dos aspectos mais trabalhosos do muralismo: fazer com que as proporções permaneçam corretas quando a arte cresce de tamanho.

E, nesse caso, a logística ajudou. Os bombeiros disponibilizaram um caminhão com a escada magirus, aquela giratória de grande extensão, utilizada pelos profissionais da corporação, permitindo que o artista alcançasse os diferentes pontos da parede. “É matemática pura”, brinca Mateus, ao explicar o processo.

Antes de começar a pintura, o artista faz as medições, prepara o desenho e transfere o risco para a parede. Depois, acompanha a imagem original, parte por parte, para não perder as proporções.

Segundo ele, essa etapa de medição, enquadramento e preparação pode consumir de um a dois dias. Depois que o desenho está marcado na parede, vem a parte que considera mais fácil: colorir.

“Depois da medição é só colorir. Para mim é o processo mais fácil”, afirma, ao g1.

A escolha da composição também foi construída em conjunto com os bombeiros. A ideia inicial previa o bombeiro diante de um fundo com chamas.

Mateus, porém, sugeriu uma mudança. Manteve o personagem principal, mas acrescentou a bandeira de São Paulo. A opção, segundo ele, deixou o conjunto visualmente menos cansativo e reforçou a identidade da corporação no estado.

Sol, parede quente e água para enfrentar o calor

Se a altura já era um desafio, o clima de Rio Preto acrescentou ingrediente à aventura. Mateus conta que trabalhar sob o sol forte foi uma das dificuldades da semana. Como boa parte do mural é preta, a própria parede absorvia e refletia o calor, tornando a superfície ainda mais quente.

“Trabalhar com a temperatura da parede lá em cima, debaixo de sol, foi outro desafio”, conta, ao g1.

Mas, segundo o artista, não faltou apoio da equipe do quartel. Água, refrigerante e a estrutura necessária para a execução do trabalho ajudaram a enfrentar os seis dias de pintura.

Foi também a primeira vez que Mateus esteve de fato em Rio Preto. Apesar de já ter passado pela região, ele nunca havia entrado na cidade. “Gostei muito de Rio Preto. O pouco que eu andei, eu gostei bastante da cidade”, afirma.

Mais de 60 trabalhos em quartéis

O mural de Rio Preto faz parte de uma trajetória que aproximou Mateus das forças de segurança pública.

Ele estima já ter realizado mais de 60 trabalhos em quartéis e sedes de diferentes corporações, passando por mais de 40 cidades. Além de Rio Preto e Araçatuba, estão Sorocaba e Campinas. Cada arte sai em média a R$ 30 mil.

Na lista estão trabalhos para Bombeiros, Força Tática, Batalhão de Ações Especiais da Polícia (Baep), equipe Águia, Polícia Civil, Polícia Penal e Polícia Federal.

A história começou em 2022, quando o artista fazia uma pintura externa e uma equipe da viatura do Baep parou para fotografar o trabalho. A arte era uma representação de Ayrton Senna.

Os policiais gostaram do que viram, convidaram Mateus para conhecer o quartel e, pouco depois, surgiu a primeira oportunidade de pintar dentro de uma unidade policial: o 11º Baep, em Ribeirão Preto, cidade onde nasceu. A partir dali, um trabalho foi levando a outro.

“Começou a surgir trabalhos, e aí não parei mais. A maior parte dos meus trabalhos estão dentro de quartéis”, conta.

Em Araçatuba, por exemplo, ele pintou um painel de aproximadamente 20 metros de largura por seis metros de altura, também para os bombeiros. Foi justamente esse trabalho que acabou ajudando a abrir as portas para Rio Preto.

Arte que virou cartão de visitas

A relação com as forças de segurança também acabou transformando os murais em uma espécie de vitrine para o trabalho de Mateus. Atualmente, segundo o artista, cerca de 40% de seus murais são destinados à polícia, enquanto os outros 60% são trabalhos empresariais.

Ele afirma que a visibilidade conquistada dentro dos quartéis fez com que empresas passassem a procurá-lo e que, atualmente, sua agenda está lotada. “Me trouxe uma credibilidade, uma visibilidade muito grande. Foi um empurrão absurdo”, afirma.

Mateus diz que já tem entre 12 e 15 batalhões interessados em trabalhos para o fim deste ano e o começo do próximo. Uma característica chama a atenção: o artista costuma trabalhar sozinho.

“Eu trabalho sozinho, desenho sozinho, há 12 anos. Nunca ninguém me ajudou. Tudo que eu faço, eu faço sozinho”, explica.

Do retrato no papel ao muralismo

Aos 35 anos, Mateus começou a desenhar em paredes quando estava para completar 23 anos. Mas o desenho faz parte da vida dele desde muito antes.

No início, fazia retratos no papel, incluindo desenhos de bebês e pessoas idosas. Chegou a vender trabalhos por R$ 30 ou R$ 40, mas o dinheiro não era suficiente para cobrir os custos.

Ele conta que nunca fez curso de desenho ou pintura. “Eu nasci com o dom, apenas praticava”, diz. A evolução veio com a prática, a compra de equipamentos e trabalhos cada vez maiores. Primeiro vieram letreiros comerciais, depois pinturas em chácaras e lojas e, aos poucos, os grandes murais.

O estilo que define sua produção é o realismo em grandes proporções. E existe uma inspiração especial por trás do trabalho: a avó, que, segundo ele, foi a única pessoa da família a apoiá-lo quando decidiu insistir na carreira artística.

“Eu me inspiro na minha avó. É a minha motivação diária”, declara.